domingo, 10 de dezembro de 2017

O Cerco de Niceia

O zelo e a indignação dos peregrinos foram grandemente excitados quando viram a pirâmide de ossos que marcou o lugar onde Gualtério e seus companheiros tinham caído. Niceia foi sitiada e caiu em cerca de cinco semanas, mas eles ficaram muito desapontados com o saque esperado. Quando os turcos perceberam que sua posição não era mais sustentável, secretamente concordaram em entregar a cidade a Aleixo. A bandeira imperial foi erguida na cidadela, e a importante conquista foi guardada com invejosa vigilância pelos pérfidos gregos. Os murmúrios dos chefes eram inúteis, e após alguns dias de descanso, dirigiram sua marcha em direção à Frígia.

A grande batalha de Dorílio foi lutada cerca de quinze dias após o cerco de Niceia. Solimão reuniu suas hordas turcas e pôs-se em perseguição ao que ele chamou de bárbaros ocidentais. Ele os surpreendeu e atacou antes de terem alcançado Dorílio. Sua cavalaria é declarada pelos cristãos como tendo trezentos mil homens. Tão temível foi o início do ataque e tão espessas as flechas envenenadas, que os cruzados foram sobrepujados. Eles foram lançados em tal confusão que, não fosse a coragem pessoal e conduta militar de Boemundo, Tancredo, Roberto da Normandia, e a ajuda oportuna de Godofredo e Raimundo, todo o exército podia ter perecido. Com o tempo a longa batalha foi decidida em favor dos cruzados, e a campanha de Solimão caiu em suas mãos. A superstição afirmava que a vitória tinha sido ganha pelos campeões celestiais, que desceram para ajudar os cristãos.

Em uma marcha de 500 milhas através da Ásia Menor, o exército sofreu severamente de fome, sede, calor extremo, escassez de comida, e da dificuldade da marcha, o que diminuiu muito suas fileiras. A sede foi fatal para centenas em um único dia. Quase todos os cavalos morreram. E, acrescentando à confusão e consternação deles, a desunião apareceu entre os líderes, até mesmo em abertas contendas. Mas apesar de todas as dificuldades, a grande massa de cruzados que sobreviveram a essas calamidades seguiram a caminho de Jerusalém. Balduíno, o irmão de Godofredo, conseguiu se apossar da cidade de Edessa, e fundou o primeiro principado dos latinos além do Eufrates.

domingo, 26 de novembro de 2017

A Segunda Divisão da Primeira Cruzada

Entretanto, enquanto a multidão pobre, nua, iludida e plebeia era reduzida a nada, a aristocracia do Ocidente assumia a cruz, encorajavam-se uns aos outros, e preparavam-se para partir na mesma missão sagrada. Precisaremos falar um pouco sobre os chefes, para que possamos ter alguma ideia de quão minuciosamente a epidemia tinha afetado todas as classes.

O mais eminente foi Godofredo de Bulhão, um descendente de Carlos Magno. A primeira classe lhe é atribuída tanto na guerra quanto no conselho. Ele tinha acompanhado Guilherme da Normandia em sua invasão à Inglaterra; novamente, ao serviço de Henrique IV, ele possui a reputação de dar a Rodolfo sua ferida de morte, o que encerrou a guerra civil; e ele foi o primeiro do exército de Henrique a atravessar os muros de Roma. Ele é representado pelos cronistas como notável pela profundidade de sua piedade e pela suavidade de seu caráter na vida cotidiana; mas era sábio em seus conselhos, e ousado como um leão no campo de batalha. Ele foi acompanhado por seus dois irmãos, Eustácio e Balduíno; Hugo, irmão do rei da França; os condes Raimundo de Toulouse, Roberto da Flandres e Estêvão de Blois; e também Roberto, duque da Normandia, filho de Guilherme, o Conquistador. Mas tão grande e tão geral foi a excitação, que quase todos os galantes chefes da Europa estavam inspirados com coragem de cavaleiros e rivalidades nacionais, para se distinguirem nesta guerra santa.

Supõe-se que seiscentos mil homens tenham deixados seus lares nessa época, com inumeráveis atendentes, mulheres e servos, e operários de todos os tipos. A dificuldade de obter subsistência para tantos os levou a separarem suas forças e a prosseguirem até Constantinopla por diferentes rotas. Foi acordado que eles deveriam todos se encontrarem lá, e daí começaram suas operações contra os turcos. Após uma marcha longa e dolorosa, na qual milhares pereceram, os sobreviventes alcançaram a capital oriental. Aleixo, embora pudesse ser grato por uma força moderada vinda do Ocidente para ajudá-lo contra os turcos, que estavam perigosamente próximos dele, ficou atônito e alarmado com a aproximação de tantos chefes poderosos e grandes exércitos. A paz de suas fronteiras tinha sido perturbada pelos furtos e irritação das promíscuas multidões sob Pedro, o Eremita; mas ele temeu consequências mais sérias da chegada de tais tropas formidáveis sob Godofredo. Ao saber de uma companhia que uma outra logo se seguiria, ele os atraiu astuciosamente pelo Bósforo, de modo que não se reunissem nas proximidades de sua capital. Por esse meio, embora não sem ameaçadas hostilidades, os cruzados passaram, todos, para a Ásia antes da festa de Pentecostes.

domingo, 12 de novembro de 2017

A Primeira Cruzada (1096 d.C.)

1. O festival da Assunção, em 15 de agosto de 1096, foi afixado como o dia em que os cruzados começariam sua marcha. Mulheres pediram aos seus maridos, aos seus irmãos e aos seus filhos que tomassem a cruz; e aqueles que recusaram tornaram-se marcas de desprezo geral. Propriedades de todos os tipos foram vendidas para arrecadar dinheiro, mas como todos queriam vender e ninguém queria comprar, as coisas naturalmente caíram a um preço excessivamente baixo, e foram compradas principalmente pelo clero; desse modo quase todas as propriedades do país passaram para as mãos deles. Godofredo prometeu seu castelo de Bulhão, nas Ardenas, ao bispo de Liege. O artesão vendeu suas ferramentas, o fazendeiro seus implementos, para arrecadar dinheiro para a compra de equipamentos para a viagem. O fabuloso esplendor e riqueza do Oriente foram colocados diante da imaginação, já estimulada pelas lendas românticas de Carlos Magno e seus pares. Além do entusiasmo religioso que então animava todas as classes, uma variedade de outros motivos operavam na mente do povo. Para o camponês, antes não havia a oportunidade de deixar sua vida deprimida para pegar nas armas e abandonar o serviço ao seu senhor feudal. Para o ladrão, o pirata, o fora da lei, antes não havia perdão e restauração para a sociedade; para o devedor, antes não havia escape de sua obrigações, e para todos os que tomavam a cruz havia a certeza de que a morte na guerra santa os tornaria participantes da glória e bem-aventurança dos mártires. E tão grande foi a excitação produzida por essa epidemia papal que, muito antes do dia indicado para o início da expedição, a impaciência da multidão não conseguia se conter.

No início da primavera de 1096, Pedro [o Eremita], o primeiro missionário da cruzada partiu em sua marcha para o Oriente à frente de um exército selvagem e heterogêneo. Cerca de 6.000 da população dos confins da França e Lorraine reuniram-se em torno do Eremita, e pressionaram-no a liderá-los até o santo sepulcro. Ele então assumia o caráter, sem as capacidades necessárias, de um general, e então marcharam ao longo do Reno e do Danúbio. Gualtério Sem-Haveres, um pobre mas valente soldado, seguiu com eles com quinze mil pessoas. Um monge chamado Godescalco (ou Gottschalk) seguiu de perto Pedro e Gualtério com cerca de vinte mil dos habitantes das aldeias da Alemanha. Um quarto enxame de cerca de duzentos mil da escória do povo, conduzidos por um chamado Conde Emicho, pressionaram-lhe a retaguarda. Essas sucessivas multidões assim contavam totalmente trezentos mil guerreiros da cruz, assim chamados. Mas logo manifestou-se que um outro espírito os animava. Nenhum deles conhecia a cruz, senão como um emblema idólatra exterior. Velhos e enfermos, mulheres e crianças, e os indivíduos mais baixos do populacho ocioso, seguiram o exercito dos cruzados!

Nada podia ser mais melancólico e desastroso do que a conduta e o destino dessas multidões enganadas. Suas necessidades e quantidades logo os compeliram a se separarem. Eles estavam sem ordem ou disciplina, e a maioria deles desprovidos de armadura ou dinheiro. Eles não tinham nem ideia da distância de Jerusalém, ou das dificuldades que seriam encontradas pelo caminho. Tão ignorantes eram que, ao avistarem a primeira cidade além dos limites de seu conhecimento, logo inquiriram se não seria Jerusalém. Em vez de sobriedade e ordem em sua marcha, esta foi marcada por assassinato, pilhagem, devassidão, e de toda sorte de hábitos infames. Os inofensivos habitantes judeus de cidades às margens do Mosela, do Reno e do Danúbio, através das quais eles marcharam, foram saqueados e mortos por serem assassinos de Cristo e os inimigos da cruz. A população da Hungria e da Bulgária levantou-se contra eles por causa de seus hábitos perturbadores e de pilhagem, e uma grande quantidade deles foram mortos.

Após repetidos desastres e aventuras tolas, eles chegaram em Constantinopla; mas Aleixo, o imperador grego, mais alarmado do que satisfeito com seus aliados, os transferiu rapidamente, se não traiçoeiramente, pelo Bósforo. Uma grande batalha ocorreu logo em seguida, entre os muros de Niceia -- a capital turca. O exército do Eremita foi feito em pedaços por Solimão, o sultão turco de Icônio. Gualtério Sem-Haveres foi morto com a maioria de seus seguidores, e seus ossos foram ajuntados em uma grande pilha para alertar seus companheiros da desesperança de sua empreitada. É comprovado que nessas mal conduzidas expedições, trezentos mil pereceram, e alguns estendem o número para meio milhão. Daqueles que tinham começado sob a direção de Pedro e de seus tenentes, não mais de 20.000 sobreviveram e estes tentaram encontrar seu caminho de volta para casa, mas apenas para contar o triste destino de seus companheiros que tinham morrido pelas flechas dos turcos e dos húngaros, ou pela escassez e fadiga. Dificilmente sequer um dos do exército de Pedro alcançou as fronteiras da Terra Santa. O papa Urbano viveu para ouvir sobre as angústias e misérias de sua própria obra maligna, mas morreu antes da captura de Jerusalém.

sábado, 4 de novembro de 2017

Papa Urbano e as Cruzadas

Em março de 1095, um concílio foi convocado para se reunir com Urbano em Placentia, a fim de realizar uma consulta sobre a guerra santa e outros assuntos importantes. Duzentos bispos, quatro mil clérigos e trinta mil leigos compareceram; e, como não havia edifício grande o suficiente para conter a vasta multidão, as sessões maiores foram realizadas em um campo próximo à cidade. Além do projeto da guerra santa, o papa abraçou a favorável oportunidade de confirmar as leis e afirmar os princípios de Gregório. E ali em Placentia a sanção final foi dada às duas características mais fortes nas doutrinas e na disciplina da igreja romana -- a saber, a transubstanciação e o celibato do clero.*

{* Waddington, vol. 2, p. 102.}

Em novembro do mesmo ano, outro concílio foi convocado para se reunir com o papa em Clermont, na Auvérnia. As citações a esse concílio eram urgentes, e o clero foi encarregado de excitar os leigos na causa da cruzada. Uma vasta assembleia de arcebispos, bispos, abades, etc. foi reunida, as cidades e vilas vizinhas se encheram de estranhos, enquanto muitos foram obrigados a alojar-se em barracas. A sessão durou dez dias. Foram tratados os cânones usuais referentes à condenação da simonia, etc. Urbano se aventurou a avançar um passo além de Gregório, ao proibir não apenas a prática da investidura laica, como também proibindo que qualquer eclesiástico devesse jurar fidelidade a um senhor secular -- uma proibição que pretendia acabar com qualquer dependência da igreja ao poder secular. Assim vemos o astuto papa aproveitando cada vantagem de sua extrema popularidade, enquanto as mentes de todos estavam absorvidas com o assunto da vez: a santa cruzada. Nenhum momento poderia ser mais favorável para o avanço do grande objeto de ambição papal: a supremacia reconhecida sobre a Cristandade latina; ou a elevação do próprio Urbano sobre o papa rival Clemente*, assim como sobre os soberanos seculares que o apoiavam.

{* N. do T.: também conhecido como antipapa Clemente III.}

Na sexta sessão a cruzada foi proposta. Urbano subiu em um alto púlpito no mercado e dirigiu-se às multidões reunidas. Sua discurso foi longo e excitante. Ele falou sobre as glórias antigas da Palestina, onde cada pedaço de chão tinha sido santificado pela presença do Salvador, pela Sua Virgem Mãe, e por outros santos. Ele se alongou sobre a presente condição do território sagrado -- possuído por um povo ímpio, os filhos da serva egípcia; sobre as indignidades, os atentados, a tirania  que infligiram aos cristãos redimidos pelo sangue de Cristo. Ele também não se esqueceu de falar das progressivas invasões dos turcos sobre a cristandade. "Lancemos fora a escrava e seu filho", clamou ele, "Que todos os fiéis armem-se. Ide adiante, e Deus estará convosco. Redimi vossos pecados -- vossa rapinagem, vossos incêndios, vossos derramamentos de sangue -- pela obediência. Que as famosas nações dos francos demonstrem seu valor em uma causa onde a morte é a certeza da bem-aventurança. Considerai uma alegria morrer por Cristo onde Cristo morreu por vós. Não pensai nos parentes ou no lar; vós deveis a Deus um amor maior, pois para um cristão qualquer lugar é exílio, qualquer lugar lhes é lar e país". O egoísta papa não deixou de apelar para uma paixão sequer. Mas seu verdadeiro desígnio e grande objetivo era dispor de barões rebeldes e monarcas obstinados, envolvendo-os em uma distante e ruinosa expedição, e, na ausência deles, reunir em suas próprias mãos todas as linhas desse grande movimento e consolidar os elevados esquemas de seu predecessor e mestre, Hildebrando.

Concluindo, o papa blasfemo ofereceu absolvição para todos os pecadores -- os pecadores de assassinato, adultério, assalto, incêndio criminoso -- e isso sem penitência a todos que tomassem as armas nessa causa sagrada. Ele prometeu vida eterna a todos os que sofressem a gloriosa calamidade da morte na Terra Santa, ou até mesmo em seu caminho até lá. Os cruzados passariam imediatamente para o paraíso. A grande batalha entre a Cruz e a Crescente* seria decidida para sempre no solo da Terra Santa. Em relação a ele próprio, como ele mesmo disse, ele devia permanecer em casa; o cuidado da igreja o detinha. Se as circunstâncias permitissem, ele seguiria, porém, como Moisés, enquanto eles estivessem matando os amalequitas, ele estaria perpetuamente engajado em fervente e prevalecente oração pelo sucesso deles.**

{* N. do T.: a [lua] crescente símbolo do islamismo }

{** Robertson, vol. 2, p. 630; Milman, vol. 3, p. 233; Waddington, vol. 2, p. 77.}

O discurso do papa foi interrompido por uma entusiástica exclamação de toda a assembleia: "Deus o quer! -- Deus o quer!", palavras que mais tarde se tornariam o grito de guerra dos cruzados, e toda a assembleia declarou-se o exército de Deus. O contagioso frenesi se espalhou com uma rapidez inconcebível. "Nunca, talvez", disse alguém, "um único discurso de um homem operou resultados tão extraordinários e duradouros como o de Urbano II no Concílio de Clermont". "Foi a primeira explosão de fanatismo", disse outro, "que sacudiu toda o tecido da sociedade, desde as extremidades do Ocidente até o coração da Ásia, por mais de dois séculos".

Tendo assim declarado de forma tão clara e concisa quanto possível as causas ostensivas das Cruzadas, ou melhor, os motivos do papado, precisamos apenas falar mais um pouco sobre algumas datas e sobre mais alguns detalhes de cada expedição.

domingo, 15 de outubro de 2017

Pedro, o Eremita

Os sentimentos dos cristãos europeus estavam naturalmente excitados pelos relatos sobre as crueldade e ultrajes aos quais seus irmãos no Oriente estavam sendo sujeitos pelos infiéis conquistadores da Terra Santa; e isto deu uma aparência de justiça à ideia de uma guerra religiosa.

No ano 1093, Pedro, um nativo de Amiens e um monge peregrino, visitou Jerusalém. Seu espírito ficou muito agitado pela visão das indignidades que os cristãos tinham que suportar. O sangue do franco tornou-se como fogo quando viu os sofrimentos e degradações de seus irmãos. Ele falou com Simeão, o patriarca de Jerusalém, sobre o assunto de sua libertação, mas o desesperado Simeão deplorou a desesperança de sua condição, uma vez que os gregos, os protetores naturais dos cristãos na Síria, estavam muito fracos para prestar-lhes ajuda. Pedro então prometeu-lhe a ajuda dos latinos. "Levantarei as nações marciais da Europa em sua causa", ele exclamou, e creu que seu voto tinha sido ratificado no céu. Quando prostrado no templo, ele ouviu 'a voz do Senhor Jesus', dizendo-lhe: "Levante, Pedro, e siga adiante para tornar conhecidas as tribulações do meu povo; a hora se aproxima para a libertação de meus servos, para a recuperação dos lugares sagrados". Era um hábito conveniente naqueles dias, para monges em solidão austera e com a imaginação excitada, acreditar no que quisessem acreditar, e então serem confirmados por meio de sonhos e revelações sobre o que quer que acreditassem.

Pedro agora acreditava em sua própria missão, e isso foi um grande meio para que os outros também cressem nisso. Ele apressou-se a Roma. O papa, Urbano II, ficou infectado por seu fervor, e deu total sanção à sua pregação sobre a libertação imediata de Jerusalém. O eremita, tendo então a sanção tanto 'do céu' quanto do papa, partiu em sua missão. Após atravessar a Itália, ele cruzou os Alpes e entrou na França. Ele é descrito como baixo em estatura, magro, de pele escura, mas com um olho de fogo. Ele andava em uma mula com um crucifixo em sua mão, sua cabeça era careca, e andava descalço; sua roupa era um manto longo com uma corda, e uma capa de eremita do mais grosseiro material. Ele pregava aos altos e baixos, em igrejas e em estradas, e nos mercados. Sua rude e brilhante eloquência era o que agitava o coração do povo, pois ele também vinha do povo. Ele apelava para cada paixão; à indignação e piedade, ao orgulho do guerreiro, à compaixão do cristão, ao amor dos irmãos, ao ódio dos infiéis; à suja profanação da terra que tinha sido "santificada" pelo nascimento e vida do Redentor. "Por que", ele exclamava veementemente, "os incrédulos deveriam ser permitidos por mais tempo a reter a custódia de tais territórios cristãos como o Monte das Oliveiras e o Jardim de Getsêmani? Por que deveríamos permitir que os seguidores não batizados de Maomé, aqueles filhos da perdição, poluam com pés hostis o solo sagrado que foi testemunha de tantos milagres, e ainda forneceu tantas relíquias que manifestaram poder sobre-humano? Ossos de mártires, vestes de santos, lascas da cruz, espinhos da coroa, estavam todos prontos para serem recolhidos pelo sacerdócio fiel que lideraria a expedição. Que o solo de Sião seja purificado com o sangue dos infiéis que abateremos."*

{* Eighteen Christian Centuries, de White, p. 246.}

Quando as palavras e o fôlego lhe falhavam, ele chorava, gemia, batia nos peitos e levantava um crucifixo, como se o Próprio Cristo estivesse implorando-lhes a unirem-se ao 'exército de Deus'. Os delírios de seu frenesi tiveram um efeito prodigioso sobre todas as classes em todas as terras. Homens, mulheres, e crianças aglomeravam-se para tocar em suas vestes; até mesmo os cabelos que caíam de sua mula eram recolhidos e guardados como relíquias. Em um curto período de tempo, ele retornou ao papa, assegurando-lhe que em todo lugar seus apelos tinham sido recebidos com entusiasmo, de modo que ele dificilmente poderia impedir seus ouvintes de tomar armas e segui-lo até a Terra Santa. Nada mais era necessário além de um plano, de líderes e organização, e assim o papa ousadamente resolveu realizar esse grande empreendimento.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Os Lugares Sagrados

Desde os primórdios da cristandade, peregrinações à Terra Santa tornaram-se uma paixão dominante entre os mais devotos e supersticiosos. Jerome fala de multidões que, vindos de todos os lados, se aglomeravam nos lugares sagrados. Mas a suposta descoberta do verdadeiro sepulcro, o local de enterro da verdadeira cruz, e a magnifica igreja construída sobre o sepulcro pela devota Helena e seu filho Constantino, despertaram em todas as classes um entusiasmo selvagem de visitar a Terra Santa. Desde essa época (326 d.C.), o fluxo de peregrinações continuou, aumentando cada vez mais, até o período em que Jerusalém foi capturada pelos muçulmanos sob o califa Omar, em 637. Os peregrinos eram protegidos e cuidados pelo caminho quando encontravam as privações e perigos de uma longa viagem. Mas sob o governo muçulmano eles foram impedidos de entrarem na cidade santa, a menos que comprassem o privilégio pagando tributo aos califas. A partir desse momento, os piedosos logo começaram a se juntar em números reduzidos para realizar suas devoções no santo sepulcro.

Por volta do ano 1067, uma nova raça de conquistadores ganhou a posse da Palestina, que provaram ser mestres ainda mais duros que os sarracenos. Estes eram os seljúcidas, uma tribo de tártaros, hoje familiarmente conhecidos como turcos. Eles vieram originalmente de Tartária. Eles abraçaram a religião islâmica, e tornaram-se então islâmicos mais fanáticos do que os árabes que seguiam o 'profeta'. No entanto, ao zelo intolerante de recém-convertidos ao Islã eles combinaram a tirania e desumanidade dos bárbaros. Sob esses novos senhores da Palestina, a condição dos habitantes e peregrinos cristãos foi grandemente alterada para pior. No lugar de serem tratados meramente como súditos tributários, eles foram desprezados como escravos, e os peregrinos expostos a severas perseguições.

As Cruzadas

Capítulo 20: As Cruzadas (1093 d.C. - 1213 d.C.) 


O inimigo {* N. do T.: o diabo} agora muda de tática. O papa ganhou pouco ou nada por meio de suas longas guerras contra o império, e o senso comum da humanidade tinha sido insultado por sua insolência sem igual. Meios mais plausíveis, mais enganadores e mais piedosos deveriam ser inventados. Como poderia o poder espiritual ganhar ascendência completa sobre o secular era ainda uma questão a ser resolvida pelo inimigo.

O gênio maligno de Roma que presidia em seus concílios sugere uma guerra santa com o propósito de resgatar o sepulcro de Cristo das mãos dos turcos incrédulos. O papa Urbano imediatamente abraça a sugestão e torna-se o líder do empreendimento. O Vaticano inteiro concordou. Era perfeitamente evidente que, por essas longas expedições à Palestina, o sangue da Europa deveria ser drenado, sua força exaurida, e seus tesouros desperdiçados. Não se pensava em tentar converter os incrédulos para a fé de Cristo -- a verdadeira missão do cristianismo -- mas em enfraquecer o poder dos monarcas seculares, para que os pontífices pudessem reinar sobre eles. O papado é, em essência, infiel. "Venerado seja entre todos o matrimônio" (Hebreus 13:4) -- entre todos, diz a Palavra de Deus. Não, diz Gregório, é concubinato no sacerdócio -- um pecado condenatório. Mas a Palavra de Deus permanece inalterada e inalterável. O casamento é venerável entre todos -- não apenas entre alguns, mas entre todo. Foi instituído pelo Próprio Deus que "formou uma mulher, e trouxe-a a Adão (o homem)" (Gênesis 2:22), foi sancionado por Cristo, e proclamado "venerável entre todos" pelo Espírito Santo. "Pregai o evangelho a toda criatura" é a comissão do Salvador a todos os que O tem como Salvador e Senhor. 'Não', diz Urbano, 'matem os incrédulos sem misericórdia. Esta é a obra que Deus exige em sua mão. Que o joio seja arrancado pela raiz, e lançado no fogo para que sejam queimados. Mas isso não é tudo. O poder das nações deve ser reduzido para que o pontífice possa triunfar sobre eles'. Os resultados logo mostrarão que tais eram os conselhos do gênio maligno do papado.

domingo, 3 de setembro de 2017

Sumário

Para baixar (até capítulo 17 - Século I ao X - Ano 0 ao 1000 d.C.):
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Sumário:


Prefácio
Capítulo 1 - Verdades Fundamentais
Capítulo 2 - De Pentecostes ao Martírio de Estêvão
Capítulo 3 - De Estêvão ao Apostolado de Paulo
Capítulo 4 - Os Apóstolos e os Pioneiros
Capítulo 5 - As Duas Primeiras Viagens de Paulo
Capítulo 6 - A Terceira Viagem de Paulo
Capítulo 7: Roma e seus Governantes (64 d.C. - 177 d.C.)
Capítulo 8: A História Interna da Igreja (107 d.C. - 245 d.C.)
Capítulo 9: Roma e seus Governantes (180 d.C. - 313 d.C.)
 Capítulo 10: O Período de Pérgamo (313 d.C. - 606 d.C.)
Capítulo 11: Roma e seus Governantes (313 d.C. - 397 d.C.)
Capítulo 12: A História Interna da Igreja (245 - 451 d.C.) 
 Capítulo 13: Roma e a Expansão de Sua Influência (397 - 590 d.C.)
Capitulo 14: Europa (372 d.C. - 814 d.C.)
Capítulo 15: Islamismo - Iconoclastia (569 - 741 d.C.)
Capítulo 16: Europa (653 d.C. - 855 d.C.)
Capítulo 17: Europa (814 d.C. - 1000 d.C.)
Capítulo 18: Europa (1000 d.C. - 1110 d.C.)
Capítulo 19: O Papa Gregório VII (1049 - 1085 d.C.) 

Reflexões sobre a Luta entre Henrique e Gregório

Temos apresentado, assim, um relato mais detalhado do que o usual sobre a luta entre Gregório e Henrique, de modo que o leitor possa ter diante de si uma amostra justa do espírito e das obras do papado na Idade Média. E que saibamos que seu espírito nunca muda: suas obras podem mudar, de acordo com o poder e as oportunidades do papa reinante. Como era antes, assim ainda é, e sempre será o mesmo. Nenhum idioma é capaz de exagerar a blasfêmia, crueldade e tirania do papado; e o mesmo espírito permeia, mais ou menos, em cada membro de sua comunidade. Pois qual, pode-se perguntar, em termos simples, foi o crime que Henrique cometeu para ter trazido sobre si uma perseguição tão implacável durante sua vida e até mesmo após sua morte? O leitor deve se lembrar que a disputa surgiu sobre o assunto das investiduras.

O direito tradicional dos monarcas de ter uma voz na indicação de bispos e dignatários da igreja em seus domínios era reconhecido por séculos. Com não pouca frequência eles nomearam cargos à Sé de Roma assim como a outros bispados em seus domínios. Até mesmo o próprio Hildebrando esperou pacientemente até que sua própria eleição recebesse a ratificação legal do imperador. Mas mal ele foi posto no trono pontifício e já escreveu uma carta insultante ao imperador, ordenando que se abstivesse da simonia e renunciasse ao direito de investidura pelo anel e pelo báculo. Henrique, em autodefesa, afirmou as prerrogativas que seus predecessores tinham exercido sem questionamentos, especialmente desde os dias de Carlos Magno. Gregório então trovejou uma sentença de excomunhão contra ele, libertou seus súditos de seus juramentos de fidelidade, e o declarou deposto por desobediência. O papado então tirava sua máscara, e o mundo já não podia mais ter dúvida sobre os objetivos do poder espiritual. Mas tão grande era a ignorância do período que as pretensões mais selvagens encontraram muitos apoiadores, e tão supersticioso era o povo que foi convencido a acreditar que todos os que levantassem armas contra o rei excomungado deveriam ser considerados os campeões da fé.

Essa foi toda a ofensa de Henrique contra o papado. Esta foi a causa de tanto derramamento de sangue e sofrimento: o implacável padre não cederia em nenhum ponto, o imperador lutou por seus direitos tradicionais, e assim uma grande luta continuou até que a morte fechasse a cena.

Os Anos Restantes e a Morte de Henrique

Tendo acompanhado tanto a vida do rei em conexão com o papa, observaremos brevemente seu fim antes de começarmos um novo capítulo.

Ele viveu mais 21 anos após a morte de seu grande antagonista. Em 7 de agosto de 1106, Henrique terminou sua longa e agitada vida, e seu turbulento reinado de cinquenta anos. Os registros da história estão cheios de cada incidente da vida do grande monarca, desde sua juventude até sua morte, mas mesmo um esboço de sua vida política não está dentro de nosso escopo. O contraste entre as afeições de seu povo e a inimizade da igreja é marcante, e nos conta seu próprio conto. Mesmo tendo sido marcado pelo papa com a marca de uma besta, ele foi muito amado pelo povo. Ele tinha muitas falhas muito comuns a reis, mas tinha um grande lugar nos corações de seu povo. "Com a notícia de sua morte", diz Greenwood, "o amor deles transbordou em profundas e amargas lamentações. Um clamor geral foi ouvido nas ruas da cidade de Liege; a corte e o povo, as viúvas e os órfãos, a multidão dos pobres e indigentes da cidade e do campo reuniram-se em homenagem ao seu soberano, seu amigo e seu benfeitor. Com alta voz, lamentaram a perda de um pai; dissolvidos em lágrimas, beijaram suas mãos frias, abraçando os membros inanimados, e dificilmente puderam ser persuadidos a dar lugar aos assistentes para o preparo do corpo para o enterro. Também não podiam ser persuadidos a deixar a tumba; mas por muitos dias se revezavam dia e noite para vigiar e orar ao lado do lugar em que o tinham enterrado."*

{* Cathedra Petri, livro 11, p. 606.}

Nada poderia ser mais bonito ou tocante do que o testemunho desses verdadeiros pranteadores à benevolência do imperador. Mas ah!, quão diferente e quão triste quando nos voltamos a assim chamada igreja e aos assim chamados representantes do manso e humilde Jesus! A ira de seus adversários papais parece ter sido esquentada sete vezes quando ouviram falar de tais honras sendo pagas ao corpo do excomungado Henrique. O jovem rei, seu filho, Henrique V, foi ameaçado com as anátemas do céu a menos que exumasse e depositasse em algum lugar não consagrado os restos de seu pai, ou então que pedisse ao papa para libertar ao falecido (mesmo após sua morte) da excomunhão. Mas que perversa e inconcebível presunção! Seu fiel bispo Alberto, que tinha dado ao seu soberano um enterro digno na igreja de São Lamberto, foi obrigado, como penitência por este ato de gratidão e louvor, a desenterrar o corpo com suas próprias mãos e enviá-lo a um edifício não consagrado em uma ilha no rio Mosela. Mas essas indignidades assim perpetradas contra o corpo sem vida do último imperador produziu uma reação. O jovem rei, embora tivesse sido treinado pelo Papa Pascal II a enganar seu pai e a se rebelar abertamente contra ele, ficou alarmado diante desse terrorismo espiritual, deu ordens para que o corpo fosse removido e enviado a Espira (ou Speyer), e solenemente o depositou na tumba de seus ancestrais. A procissão foi seguida por quase toda a população. O serviço para o morto foi realizado com toda cerimônia e honra usuais em tais ocasiões.

O bispo Gibbard, um dos mais ferozes perseguidores do último imperador, estava em casa nesse momento, mas a notícia do que tinha acontecido o trouxe de volta com toda a pressa. Fervendo de indignação, fez com que o corpo fosse mais uma vez exumado, colocado em solo não consagrado, e impôs uma penitência a todos os que tinham participado da procissão. Mas a voz da afeição não podia ser silenciada pelo implacável bispo. Os cidadãos acompanharam o corpo ao seu novo lugar de repouso com intensas lamentações. "Eles lembraram o bispo", diz Milman, "de como o grande imperador tinha enriquecido a igreja de Espira; eles contaram os ornamentos de ouro, e prata e pedras preciosas, as vestimentas de seda, as obras de arte, a mesa de ouro do altar, ricamente forjada, um presente do imperador oriental Aleixo, que tornou sua catedral a mais incrível e famosa na Alemanha. Eles em alta voz expressaram sua tristeza e insatisfação, e era difícil conter o tumulto. Mas eles não prevaleceram. No entanto, ainda assim o túmulo de Henrique era visitado por testemunhas sinceras de suas extensas caridades. Finalmente, após cinco anos de obstinada disputa, foi permitido que Henrique repousasse na abóbada consagrada com seus antepassados imperiais."*

{* Latin Christianity, vol. 3, p. 277.}

A Morte de Gregório (1085 d.C.)

Coberto de vergonha e marcado com infâmia eterna, e temendo ouvir as reprovações que seriam lançadas contra ele como o autor das recentes calamidades, ele se retirou da cidade de São Pedro na companhia de seus aliados, enquanto suas ruínas ainda fumegavam e suas ruas se encontravam desoladas, e seus antes numerosos habitantes queimavam, jaziam mortos, ou eram levados ao cativeiro. Fraco e de coração abatido, sem dúvida -- do orgulho terrivelmente mortificado -- ele primeiramente tomou repouso no monastério de Monte Cassino, e então prosseguiu ao forte castelo Salerno, dos normandos. Ele nunca viu Roma novamente.

Um numeroso corpo de eclesiásticos, devotados à promoção das elevadas pretensões do papa degradado, o seguiram até Salerno. Ali ele convocou um sínodo, e como se não estivesse afetado pelos horrores que causou e testemunhou, trovejou novamente anátemas e excomunhões contra Henrique, o antipapa Clemente e todos os seus adeptos. Mas estes foram seus últimos trovões. A morte se aproximava rapidamente. O grande e inflexível defensor da supremacia da ordem sacerdotal deveria morrer como qualquer outro homem. Ele chamou seus companheiros de exílio, fez uma confissão de sua fé -- especialmente no que se referia à eucaristia, tendo sido suspeito de simpatizar com os pontos de vista de Berengário de Tours -- e perdoou e absolveu a todos aqueles que ele tinha anatemizado, com exceção do imperador e do antipapa. Em relação a esses ele ordenou que seus seguidores não fizessem as pazes, a menos que se submetessem completamente à igreja.

Conta-se que uma tempestade assustadora se enfureceu enquanto seus amigos presenciavam a morte do papa. Suas últimas palavras memoráveis foram: "Eu amei a justiça e odiei a iniquidade; portanto morro no exílio". "No exílio, meu senhor?", disse um bispo com o mesmo sentimento, cujo orgulho sacerdotal não foi repreendido por esse espetáculo de mortalidade, "tu não podes morrer no exílio! Vigário de Cristo e de Seus apóstolos, tu recebeste de Deus os pagãos por tua herança, e as partes mais longínquas da terra por tua possessão!" O atrevido sopro de blasfêmia assim fechou, assim como tinha permeado, a vida do grande clérigo. Mas seu espírito estava agora longe da adulação de seus amigos, para ser manifesto perante um outro tribunal. Lá tudo será julgado, não de acordo com os princípios do papado, mas de acordo com a eterna verdade de Deus como foi revelada a nós na Pessoa e na obra do Senhor Jesus Cristo.

"Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam" (Salmos 2:12), são palavras da mais doce certeza para o coração; pois o quanto essa palavra "bem-aventurados" (ou "abençoados") significa quando usada pelo Próprio Deus! Mas ai daqueles que vivem e morrem sem Cristo, que um dia terão de dizer: "Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos" (Jeremias 8:20). Ah! Quem pode compreender as profundezas da miséria -- a eternidade de sofrimento -- nestas duas palavras: "não salvos!" "não salvos!" Que tremendo texto para um pregador! Que palavra de aviso para um pecador! Que o meu leitor guarde isso no coração, antes de guardar este livro, e possa cuidadosamente contrastar a morte do grande clérigo com a morte do grande apóstolo. "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda" (2 Timóteo 4:7,8). Até mesmo um falso profeta foi obrigado a dizer: "Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu" (Números 23:10).

O Incêndio da Roma Antiga

"O cavalo normando", diz Milman, "entrou pelas ruas, mas os romanos lutaram em vantagem na posse de suas casas e de seu conhecimento do terreno. Eles começaram a ganhar superioridade, e os normandos se viram em perigo. O impiedoso Guiscardo deu a ordem de incendiar as casas. De todos os lados as chamas queimavam furiosamente: casas, palácios, conventos, igrejas, à medida que a noite escurecia, foram vistas em terrível conflagração. Os distraídos habitantes precipitaram-se descontroladamente pelas ruas, não mais tentando defender a si mesmo, mas tentando salvar suas famílias. Centenas morreram. Os sarracenos aliados do papa, que haviam sido os primeiros na pilhagem, eram agora também os primeiros na conflagração e no massacre."*

{* History of Latin Christianity, vol. 3, p. 197}


Conta-se que Gregório esforçou-se nesse terrível momento, infelizmente não para salvar seu assim chamado rebanho da crueldade dos normandos, mas sim para salvar algumas das principais igrejas da conflagração geral. Guiscardo já tinha se tornado mestre da cidade -- ou melhor, das ruínas da Antiga Roma -- mas sua vingança ainda não tinha se apaziguado. Milhares de romanos foram vendidos publicamente como escravos, e milhares levados como prisioneiros. Supõe-se que nem os godos, nem os vândalos, nem os gregos nem alemães, jamais trouxeram tamanha desolação sobre a cidade como foi nesse episódio com os normandos. E que o leitor observe cuidadosamente que isso demonstra o verdadeiro espírito do papado, quando o fervoroso Guiscardo foi subornado por Gregório a se tornar seu aliado, seu libertador, seu protetor e seu vingador. As misérias, os massacres e a ruína de Roma foram justamente atribuídas à obstinação do papa nessa época, e tem sido desde então essa a opinião de todos os escritores imparciais. E ninguém jamais foi tão plenamente persuadido desse fato como o próprio Gregório. Ele não confiou nem sua pessoa nem suas fortunas à proteção fortificada dos muros de Santo Ângelo após a partida de seus aliados normandos.

domingo, 27 de agosto de 2017

Roberto Guiscardo Entra em Roma (1084 d.C.)

Para cumprir os desejos do papa, receber sua bênção e derrubar seus inimigos, Roberto juntou um exército de 30.000 soldados de infantaria irregular e 6000 cavaleiros normandos e colocou-os em marcha para Roma. Era uma hoste selvagem e mista, na qual se misturaram aventureiros de várias nações: alguns tinham se juntado ao seu estandarte para resgatar o papa, e outros por amor à guerra. Até mesmos os incrédulos sarracenos tinham se alistado em grandes números. As notícias de que uma força esmagadora estava avançando para vir ao auxílio do papa e de seus seguidores logo chegaram a Roma.

Henrique, sem perceber o perigo, tinha enviado para longe uma grande parte de suas tropas; e, como o restante era desigual demais para ir de encontro ao formidável exército inimigo, ele prudentemente retirou suas forças, assegurando a seus amigos romanos que em breve retornaria. Ele se retirou para Civita Castellana, onde podia observar os movimentos de todas as partes.

Três dias após Henrique ter deixado a cidade, o exército normando apareceu às muralhas. Quão desafortunados os habitantes daquela cidade culpada! Um dia mais tenebroso e pesado do que qualquer outro que ela já tenha passado estava por chegar, e todas as suas calamidades eram devido ao espírito vingativo e implacável de seu sumo sacerdote. Mas por se recusar a ceder ao poder secular, até mesmo o sangue de Roma -- sua própria cidade e capital -- teve de ser derramado. O domínio do papado sobre os reinos do mundo foi sua própria grande ideia, e nenhuma adversidade conseguia induzi-lo a ceder, nem um pouco, de suas sublimes pretensões. Ele foi tão inflexível em uma prisão quanto em um palácio. "Que o rei deite sua coroa e dê satisfações à igreja", eram as orgulhosas e desdenhosas palavras de Hildebrando, mesmo sendo um prisioneiro, e mesmo que o clero e os leigos implorassem para que entrasse em acordo com Henrique. Mas ele desprezou do mesmo modo os murmúrios, as ameaças e as súplicas de todos. Ele deve ter tido conhecimento sobre o caráter daquelas hordas assassinas que estavam nos portões, e quais seriam as consequências no momento em que entrassem. Mas sua mente estava formada, e a qualquer custo de derramamento de sangue humano e miséria ele inexoravelmente perseguiu seus desígnios imperiosos.

Os romanos não estavam preparados para se defenderem, e mal fizeram qualquer demonstração de resistência. O portão de São Lourenço foi rapidamente forçado, e a cidade estava imediatamente dominada. O primeiro ato de Roberto, o filho obediente da igreja, foi libertar o papa de seu longo aprisionamento no Castelo de Santo Ângelo. O normando recebeu formalmente a bênção pontifícia. Erguendo-se dos pés do papa, foi assim abençoado e edificado -- uma horrível zombaria e blasfêmia! Roberto soltou seus bandos de rufiões no meio do rebanho desprotegido do assim proclamado sumo pastor. Por três dias Roma esteve sujeita aos horrores de um saque. Os normando e os infiéis sarracenos se espalharam por cada canto da cidade. Assassinatos, pilhagem, luxúria e violência, estava tudo fora de controle. No terceiro dia, enquanto os normandos faziam festa e se divertiam em descuidada segurança, os habitantes, levados ao desespero, irromperam em uma rebeldia generalizada e correram armados pelas ruas, começando uma terrível carnificina com seus conquistadores. Assim surpreendidos, os normandos logo pegaram nas armas, e imediatamente toda a cidade tornou-se um cenário de conflito selvagem e desesperado.

Henrique e Berta Coroados (1084 d.C.)

Os romanos, finalmente, cansados de suportar as misérias de um cerco, e sem esperança de alívio por parte dos normandos italianos, declararam-se a favor de Henrique. Ele era mestre da maior parte da cidade. Seu primeiro passo foi colocar Guiberto, o arcebispo de Ravena, na cadeira papal, com o nome de Clemente III. Ele foi nomeado por um sínodo de bispos como o futuro papa. Henrique então recebeu a coroa imperial de Clemente, com sua Rainha Berta, e foi saudado como imperador pelo povo romano.

A situação de Gregório agora parecia desesperadora. Ele era um prisioneiro, e logo poderia ser entregue à vingança de Henrique. Ele não podia esperar ajuda alguma de Filipe da França. Guillherme da Inglaterra não estava disposto a se meter nas brigas do papa. Apenas podia confiar em Matilde, a condessa da Toscana. Ela era a mais poderosa, rica e zelosa apoiadora dos interesses da igreja naquele país. Na morte de sua mãe e na de seu marido enquanto ainda era jovem e bonita, o astuto papa a persuadiu a entregar todas as suas posses à igreja de Roma, que foram mais tarde intituladas de propriedades da Igreja. Mas os homens e o dinheiro de Matilde não eram suficientes para a necessidade atual do papa. Em sua grande angústia ele pediu a ajuda de Roberto Guiscardo, um grande guerreiro normando. Ele era suspeito de cumplicidade com Cêncio em sua conspiração contra Gregório, e esteve sob censura da igreja por vários anos. Mas o papa estava disposto a libertá-lo do banimento da excomunhão e até mesmo a oferecer-lhe a coroa imperial se ele viesse imediatamente ao seu auxílio. O grande normando aceitou os termos do papa e colocou sua espada implacável ao serviço de Gregório.

Os Efeitos da Política Papal

Gregório logo percebeu que tinha ido longe demais -- que a humilhação em Canossa não poderia jamais ser esquecida e nunca poderia sossegar até que fosse vingada. A compaixão, assim como o interesse, moveu muitos príncipes e prelados a se reunirem em torno do rei caído, agora que estava liberto do banimento da excomunhão. Hildebrando (Gregório VII) era odiado pela maioria por causa de sua tirania política, e temido por causa de suas censuras eclesiásticas. Os revoltados príncipes da Alemanha ficaram secretamente encorajados pelo papa a disputar a posse do trono com Henrique, o que aumentou sua perplexidade e o preveniu de voltar seus exércitos contra Roma. Ele rezou para que Henrique nunca pudesse prosperar na guerra e, no nome e com as bênçãos dos apóstolos, concedeu o reino da Alemanha ao rebelde Rodolfo, duque da Suábia. O papa até mesmo se aventurou a profetizar que dentro de um ano Henrique estaria morto ou deposto; e, como se soubesse o fim desde o início, enviou uma coroa ao futuro rei, com uma inscrição significando que aquilo era o presente de Cristo a São Pedro, e de São Pedro a Rodolfo. Mas logo ele provou-se um profeta mentiroso, assim como um padre mentiroso, e o fomentador sem remorsos de uma guerra civil.*

{*Robertson, vol. 2, p. 594.}


A força do rei aumentou gradualmente apesar de todas as tramas iníquas e cruéis de Gregório. Após anos da mais terrível guerra civil e derramamento de sangue, os exércitos de Henrique e de seu rival, Rodolfo, se encontraram uma vez mais nas margens do rio Elster, em outubro de 1080. A batalha foi longa e obstinada, mas a queda de Rodolfo deu a Henrique a vitória. Ele recebeu sua ferida de morte, conta-se, da lança de Godofredo, mais tarde o primeiro rei de Jerusalém, e um golpe de sabre de um outro decepou sua mão direita. Relata-se que o príncipe moribundo, olhando para sua mão decepada, reconheceu com tristeza: "Com essa mão eu ratifiquei meu juramento de fidelidade ao meu soberano, Henrique: a punição é justa, e agora perdi a vida e o reino". Após os adversários do rei ficarem, então, desencorajados e paralisados, ele decidiu tornar suas forças contra seu mais formidável e irreconciliável inimigo. Ele cruzou os Alpes, entrou na Itália e sitiou os muros de Roma.

Estando a cidade bem provisionada, com as muralhas fortalecidas e com a lealdade dos romanos assegurada pela riqueza de Matilde, Henrique empenhou-se por mais ou menos três anos em bloquear e sitiar Roma, mas no verão de 1083 ele ganhou posse da cidade culpada. Gregório tomou refúgio no forte castelo de Santo Ângelo, e alguns de seus partidários em suas casas fortificadas. Henrique estava disposto a fazer acordos com Hildebrando, e a aceitar a coroa imperial de suas mãos. Mas o papa não queria saber de nada que não fosse a submissão incondicional de Henrique. "Que o rei renuncie a sua dignidade e se submeta à penitência", foram os únicos termos de Gregório. O clero -- bispos, abades e monges -- e os leigos suplicaram-lhe que tivesse misericórdia da cidade afligida, e que entrasse em acordo com o rei.

Mas todas as tentativas de negociação foram infrutíferas; o papa inflexível desprezava igualmente súplicas e ameaças. A submissão absoluta de Henrique e a satisfação à igreja eram as altas exigências do papa aprisionado em seu castelo. Mas Henrique não era mais o abandonado, o de espírito quebrantado e suplicante aos seus pés, como tinha sido em Canossa.

A Penitência do Rei

O final do mês de janeiro se aproximava; o ano da graça para o rei estava quase expirando, e Henrique resolveu aceitar as condições do papa. Ele estava determinado a fazer e suportar tudo para que pudesse desapontar os complôs de seus súditos rebeldes e reter o império.

"Em uma triste manhã de inverno", diz Milman, "com o chão coberto de neve, ao rei, o herdeiro de uma longa linhagem de imperadores, foi permitido que entrasse no interior de duas das três paredes que cingiam o castelo de Canossa. Ele tinha deixado de lado toda marca de realeza ou de posição distinta, e vestia-se apenas com o fino vestido branco do penitente, e ali, jejuando, aguardou em humilde paciência a presença do papa. Mas os portões não se fecharam. Ele ficou por mais um dia, no frio, faminto e ridicularizado em vã esperança. E ainda um terceiro dia se passou, de manhã até a noite, sobre a cabeça desprotegida do rei descoroado. Todo coração moveu-se, exceto o do "representante de Jesus Cristo". Mesmo na presença de Gregório havia murmúrios baixos e profundos contra seu orgulho e desumanidade nada dignos de alguém que se proclamava um apóstolo. A paciência de Henrique não conseguia mais aguentar. Ele tomou refúgio em uma capela adjacente de São Nicolau, para implorar, em lágrimas, mais uma vez pela intercessão do já idoso abade de Cluny. Matilde estava presente, e seu coração feminino estava derretido; ela se juntou a Henrique em suas súplicas ao abade. "Tu somente podes fazê-lo", disse o abade à condessa. Henrique caiu de joelhos e, extravasando de tristeza, suplicou por sua interferência misericordiosa. Diante das súplicas femininas de Matilde, Gregório com o tempo cedeu, com desagrado, permissão para que o rei viesse a sua presença. Com os pés descalços, ainda em trajes de penitência, ficou o rei, um homem singularmente alto e nobre, com um semblante acostumado a emitir ordens e terrores sobre seus adversários, perante o papa, um homem grisalho, de baixa e nada imponente estatura e curvado pelo peso dos anos."*

{* Cristianismo Latino, de Milman, vol. 3, p. 168.}


Os termos impostos sobre Henrique eram característicos de um tirano implacável e inexorável; o papa agiu nesse assunto mais como um demônio encarnado do que como um ser humano. Constatando que o penitente real tinha sido trazido de maneira tão humilhada, e que portanto aceitaria quaisquer termos, ele forçou-o a beber as mais amargas borras de humilhação. Não precisamos incomodar o leitor com suas extensas estipulações. Tais exigências jamais tinham sido feitas ou ouvidas antes nos anais da humanidade. Mas seu grande objetivo era a consolidação de seu próprio elaborado esquema de autoridade papal. Tendo colocado seus pés sobre o pescoço do maior monarca do mundo, ele tentou o estabelecimento do direito do pontífice, diante de toda a Europa, de julgar reis, depôr reinos e absolver súditos de seus juramentos de fidelidade a reis excomungados. Isto deu ao papa um enorme poder sobre todo o mundo, e constituiu a rebelião contra um soberano legítimo um dever sagrado à igreja e a Deus.

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