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domingo, 4 de setembro de 2016

As Variações Eclesiásticas do Batismo

No Novo Testamento há perfeita uniformidade, tanto quanto ao preceito quanto aos exemplos, sobre o assunto do batismo. No entanto, em nossos próprios dias, e desde o início do terceiro século, encontramos na igreja professa infinitas variações tanto quanto o que diz respeito à teoria quanto à prática sobre esse importante assunto. Aqueles não familiarizados com a história eclesiástica podem naturalmente perguntar: Quando, e por quais meios, tais diferenças surgiram na igreja?

Como tem sido nosso plano, no decorrer de todo este livro, encontrar o início das grandes questões que têm afetado a paz e prosperidade da igreja, nos esforçaremos, bem brevemente, a apontar o início da história dos batismos eclesiásticos. Usamos o termo eclesiástico para distingui-lo do que é bíblico. Nada que tenha sido introduzido após os dias dos apóstolos inspirados provém de autoridade divina, seja em teoria ou prática. Assim, algo não pode ser o batismo cristão se varia daquilo que Cristo instituiu ou da prática de Seus apóstolos. Trazer alterações é o mesmo que mudar a coisa em si, e torná-la não o mesmo, mas um outro batismo; assim encontramos, na história, que surgiram muitos batismos.

Como nosso objeto de estudo, agora, é o início da história dessas variações, e não a controvérsia, evitaremos dar qualquer opinião sobre a tão longamente agitada questão. Por mais de 1600 anos a controvérsia tem sido mantida com grande determinação, e por homens capazes de ambos os lados. Nenhuma controvérsia na história da igreja tem tido tal continuidade, ou conduzida com tal confiança de vitória por ambas as partes. Como não há menção expressa de batismo infantil nas Escrituras, os batistas pensam que sua posição é inquestionável; e os pedobatistas, com a mesma firmeza acreditam que pode ser inferido, a partir de várias passagens conhecidas, que o batismo infantil era praticado nos dias dos apóstolos. Não houve tanta controvérsia quanto ao modo do batismo. Os gregos, latinos, francos e germânicos aparentemente batizavam por imersão. "Batismo é uma palavra grega", diz Lutero, "e em Latim pode ser traduzida como mersio, imersão; ... e embora essa prática tenha caído em desuso entre a maioria de nós, contudo, os que são batizados deveriam ser inteiramente imergidos, e então imediatamente levantados para fora da água, pois é isto que a etimologia da palavra indica, assim como na língua germânica". O testemunho e Neander é o mesmo: "O batismo era originalmente administrado por imersão; e muitas das comparações de São Paulo aludem a essa forma de administração. A imersão é um símbolo da morte, de ser sepultado com Cristo; a saída da água é um símbolo da ressurreição com Cristo; e ambos, tomados em conjunto, representam o segundo nascimento, a morte do velho homem, e uma ressurreição para uma nova vida"*. Cave, Tillotson, Waddington, etc. falam do modo de batismo de maneira similar. E como todos esses testemunhos são de pedobatistas, podemos descartar esta parte do assunto como justamente provada na história da igreja; no entanto, a fé deve permanecer somente sobre a Palavra de Deus. Não seguimos os "pais", mas sim a Cristo.

{* The Inquirer, 1839, p. 232}

Irineu, bispo de Lion, é o primeiros dos "pais" a aludirem ao batismo infantil. Ele morreu por volta do ano 200, de modo que seus escritos são datados por volta do fim do segundo século. Os "pais" apostólicos nunca mencionaram isso. Por essa época a superstição, em grande medida, tinha tomado o lugar da fé, de modo que o leitor deve estar preparado a ouvir algumas noções extravagantes colocadas por alguns dos grandes doutores; ainda assim, muitos deles, sem dúvidas, eram verdadeiro cristãos fervorosos. "Cristo veio salvar todas as pessoas para Si mesmo", diz Irineu, "com isso quero dizer que todos os que, por Ele, forem regenerados -- batizados -- para Deus: infantes e pequeninos, crianças e jovens, e pessoas mais velhas. Portanto Ele passou por várias idades: para os infantes ele foi feito um infante, santificando infantes; para os pequeninos Ele foi feito um pequenino, santificando os dessa idade; e também dando-lhes um exemplo de piedade, justiça e obediência: para os jovens Ele foi um jovem", etc. O batismo era, portanto, ensinado como sendo uma lustração da alma para todas as idades e condições da humanidade. Mas a controvérsia logo se resumiu em uma questão -- criança ou adulto. Regeneração, nascer de novo, batismo, eram usados como termos intercambiáveis, como se significassem a mesma coisa, nos escritos dos "pais".*

{* Veja História do Batismo Infantil, de Dr. Wall. Nós citamos sua tradução (para o Inglês) dos "pais". Tendo recebido os agradecimentos do clero da Câmara dos Comuns, da Convocação, e as honras de D. D. da Universidade de Oxford, por sua grande obra em defesa do batismo infantil, podemos confiar em suas citações como essencialmente corretas, e como as mais favoráveis em relação ao tema.}

Aqui temos a origem, até onde a antiguidade eclesiástica nos informa, do batismo infantil. A passagem é um tanto obscura e extremamente fantasiosa, mas é o primeiro traço que temos da questão ainda instável, e provavelmente a raiz de todas as suas variações vistas eclesiasticamente. O efeito de tal ensino nas mentes supersticiosas foi imenso. Pais ansiosos apressaram-se para ter seus delicados bebês batizados para que não morressem sob a maldição do pecado original, e o homem do mundo atrasava seu batismo até a aproximação da morte para evitar qualquer mancha subsequente, e para que pudesse emergir das águas da regeneração para os recintos da pura e genuína bem-aventurança. O exemplo e reputação de Constantino levou muitos a adiar, desse modo, o batismo, embora o clero testificava ser contra a prática.

Tertuliano. O testemunho deste "pai" prova que os bebês eram batizados em seus dias -- ele morreu por volta de 240 -- mas que ele não era favorável à prática: como ele diz, "Mas aqueles cujo dever é administrar o batismo devem saber que ele não deve ser dado precipitadamente... Portanto, de acordo com a condição e disposição de cada homem, e também de acordo com sua idade, o adiamento do batismo é mais proveitoso, especialmente no caso de crianças pequenas. Pois qual a necessidade de colocar os padrinhos em perigo? pois podem falhar em suas promessas por causa da morte, ou podem estar enganados se uma criança se provar ser de disposição ímpia."

Orígenes, ao discorrer sobre o pecado da nossa natureza, faz alusão ao batismo como o meio indicado de removê-lo. "Os bebês são batizados", diz ele, "para o perdão dos pecados. De que pecados? Ou quando eles pecaram? Ou como pode, nesse caso, o batistério suprir qualquer bem que seja? Mas de acordo com o sentido que mencionamos agora: ninguém é livre da poluição, mesmo que sua vida tenha durado apenas um dia sobre a terra. E é por este motivo, porque pelo sacramento do batismo a poluição que temos de nascença é levada embora, que os bebês são batizados."

Cipriano, bispo de Cartago, por volta do ano 253, recebeu uma carta de Fido, um bispo do interior, perguntando se um bebê, antes dos oito dias de idade, podia ser batizado se necessário. A resposta prova, não apenas que o batismo infantil era então praticado, mas a necessidade disto na mente deles por causa de sua eficácia. Cipriano, com sessenta e seis bispos em concílio, diz: "Quanto ao caso dos bebês, visto que você julga que eles não devem ser batizados dentro de dois ou três dias após terem nascido, e que a regra da circuncisão deve ser observada, de modo que ninguém deve ser batizado e santificado antes do oitavo dia após ter nascido: todos nós em assembleia fomos de opinião contrária. Seja o que for que você pensa adequado de se fazer, não houve nenhum dentre nós que tivesse a mesma ideia, mas todos nós, pelo contrário, julgamos que a graça e misericórdia de Deus não deve ser negada a qualquer pessoa nascida. Pois já que o nosso Senhor em Seu evangelho diz 'o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las', então no que depender de nós, nenhuma alma, se possível, será perdida", etc.

Gregório Nazianzeno
, bispo de Constantinopla, foi um "pai" notável por volta do ano 380. Ele foi o meio de destruir o poder do arianismo na capital oriental, onde tinha sido mantido com grande força por quase quarenta anos. Ele teve de encontrar muita oposição e até mesmo perseguição no início; mas aos poucos sua eloquência, o tom prático e sério de seu ensino, e a influência de sua vida piedosa começaram a dar resultado e a mantê-lo firme na cidade, embora nunca tenha gostado do estilo imperial da capital.

Dr. Wall cita Gregório largamente sobre o batismo, mas nossos extratos serão breves. Como o restante dos "pais", ele é enfático sobre o assunto. "O que você diz sobre aqueles que ainda são crianças e não têm capacidade de serem sensíveis, seja da graça ou da falta dela? Devemos batizá-las também? Sim, por todos os meios, se qualquer perigo torná-lo necessário. Pois é melhor que elas sejam santificadas sem terem consciência disso do que morrerem não seladas e não iniciadas. E uma base para isto, para nós, é a circuncisão, que era feita no oitavo dia e era um típico selo, e era praticada naqueles que não tinham o uso da razão". Contra a prática de adiar o batismo até um leito de morte, ele fala forte e seriamente, comparando o serviço à lavagem de um cadáver, em vez de um batismo cristão.

Basílio
, bispo de Cesareia, é constantemente associado com os dois Gregórios. Gregório de Nissa era seu irmão, e o outro seu melhor amigo. A Capadócia gerou três "pais". Basílio era fiel ao credo de Atanásio durante seus dias de depressão e adversidade, mas não viveu para contemplar seu triunfo final. Ele morreu por volta de 379. Ele foi um grande admirador e um verdadeiro exemplo do cristianismo monástico. Ele abraçou a fé ascética, abandonou sua propriedade e praticou tamanhas austeridades severas a ponto de prejudicar sua saúde. Ele fugiu para o deserto, mas sua fama fez com que uma cidade fosse construída ao redor dele, e construiu um monastério, e então os monastérios surgiram por todos os lados.

Suas visões sobre o batismo são similares às de seu amigo Gregório: ele exorta a necessidade disto com base no mesmo sentimento supersticioso que todos eles tinham. "Se Israel não tivesse passado através do mar", diz ele, "eles não teriam se livrado de Faraó: e a menos que tu passes através das águas do batismo, não te livrarás da cruel tirania do diabo", etc. Ele aplicava isto a todas as idades, e o reforçava pelas palavras do Senhor a Nicodemos: "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." (João 3:5)

Ambrósio, bispo de Milão, como todos os "pais" que já conhecemos, se engana completamente quanto ao significado de João 3:5: "Aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus". "Você vê", diz ele, "que Cristo não excetua pessoa nenhuma, nem um bebê, nem mesmo aquele que é morto por um acidente inevitável."

João, apelidado Crisóstomo, que significa "boca dourada", obteve esse nome por conta de sua eloquência suave e fluída. Ele era tão favorito do povo que eles costumavam dizer: "Nós preferimos que o sol não brilhe a João não pregar". Ele era evidentemente a favor do batismo infantil, embora não seja claro se acreditava no pecado original. "Por este motivo também batizamos bebês", diz ele, "embora eles não estejam corrompidos pelo pecado, para que possa ser acrescentadas a eles a santidade, a justiça, a herança de adoção, uma fraternidade com Cristo e para que sejam feitos membros com Ele". Seria difícil falar mais quanto aos alegados benefícios do batismo além dos que vemos aqui enumerados. Mas por mais extravagante que toda a sentença possa parecer, esse era o texto dos pedobatistas desde aqueles dias até hoje. A maioria dos nossos leitores são familiares a essas palavras: "O batismo é onde eu sou feito um membro de Cristo, um filho de Deus, e um herdeiro do reino dos céus". Tais palavras foram tiradas não das Escrituras, mas de Crisóstomo.

Dr. Wall parece ansioso por deixar transparecer que esse grande doutor [Crisóstomo] não estava alienado quanto ao pecado original. Ele sugere que o significado de suas palavras possam ser: "eles não se corromperam pelos seus próprios pecados". Mas Crisóstomo não diz "seus próprios", mas que eles não estão corrompidos pelo pecado. E certamente toda criança é corrompida, como disse o salmista: "Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" (Salmos 51:5). Em vão procuramos solidez em muitas das doutrinas fundamentais do cristianismo entre os "pais", para não dizer sobre o que eles negligenciaram, tal como a presença do Espírito Santo na assembleia, o chamado celestial e as relações celestiais da igreja, a diferença entre a casa de Deus e o corpo de Cristo, a bendita esperança, e o glorioso aparecimento do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo (Tito 2:11-15).

domingo, 10 de abril de 2016

A Perseguição na África

Os historiadores dizem que em nenhuma parte do Império Romano o cristianismo tinha criado raízes mais profundas e permanentes do que na província da África. Naquela época, essa região era cheia de ricas e populosas cidades. O tipo africano de cristianismo era totalmente diferente do que era chamado de cristianismo egípcio. O primeiro era mais sincero e apaixonado, e o último era sonhador e especulativo, graças à má influência do platonismo. Tertuliano pertence a este período, e é um verdadeiro exemplo desta diferença; mas veremos mais sobre isso mais adiante. Vamos agora tomar nota de alguns dos mártires africanos.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Poder da Oração

Ao traçar a linha prateada da graça de Deus em Seu povo amado, temos agora que tomar nota de um relato que foi amplamente difundido entre os cristãos após o início do terceiro século. Ocorreu perto do fim do reinado de Aurélio, e que o levou, como dizem alguns, a mudar o rumo de sua política para com os cristãos. Em uma de suas campanhas contra os germânicos e sármatas, ele se viu em uma situação de extremo perigo. O sol ardente brilhava em cheio nas faces de seus soldados; eles foram cercados pelos bárbaros e estavam exaustos por feridas e cansaço, e sedentos: enquanto isso, o inimigo se preparava para atacá-los. Nessa situação extrema, a 12ª legião, que diziam ser composta por cristãos, avançou e se ajoelhou em oração. De repente, o céu ficou coberto de nuvens, e começou a cair uma forte chuva. Os soldados romanos pegaram seus elmos para recolher as refrescantes gotas, mas a chuva logo aumentou e se tornou uma tempestade de granizo, acompanhada de trovões e raios, que deixou os bárbaros tão alarmados que garantiu aos romanos uma vitória fácil.

O imperador, perplexo com tal resposta miraculosa às orações, reconheceu a intervenção do Deus dos cristãos, conferiu honra à legião, e emitiu um decreto em favor da religião deles. Depois disto, se não antes, eles passaram a ser chamados de "legião do trovão". Historiadores, a partir de Eusébio, têm tomado nota desse marcante acontecimento.

Mas, como uma lenda frequentemente contada, muitas coisas lhe foram acrescentadas. Há boas razões para crer, no entanto, que uma resposta providencial em favor dos romanos foi dada à oração. Isto parece bastante evidente. E para a fé não há nada incrível em tal evento, embora algumas das circunstâncias relatadas sejam questionáveis. Por exemplo, uma legião romana naquela época provavelmente teria cinco mil homens: embora possa ter havido um grande número de cristãos na 12ª legião, que era uma legião distinta, ainda assim é difícil acreditar que todos eles eram cristãos.

Em seu retorno da guerra, eles sem dúvida relataram a seus irmãos a misericordiosa intervenção de Deus em resposta à oração, pois a igreja registraria e disseminaria a história entre os cristãos, para Seu louvor e glória. Mas os fatos são ainda mais plenamente confirmados pelos romanos. Eles também acreditavam que a libertação tinha vindo do céu, mas em resposta às orações do imperador aos deuses. Assim, o evento foi comemorado, de sua maneira habitual, em colunas, medalhas e pinturas. Nelas, o imperador é representado estendendo as mãos em súplicas; o exército recolhendo a chuva em seus elmos; e Júpiter lançando seus raios sobre os bárbaros, que jazem mortos no chão.

Alguns anos depois desse marcante evento, Marco Aurélio, o filósofo e perseguidor, morreu. Grandes mudanças rapidamente se seguiram. A glória do império, e o esforço para manter a dignidade da antiga religião romana, expirou com ele, mas o cristianismo fez grandes e rápidos avanços. Homens hábeis e eruditos surgiram nessa época e, ousada e poderosamente, defendiam, usando suas penas como instrumento, o cristianismo. Estes eram chamados de Apologistas. Tertuliano, um africano, que dizem ter nascido em 160, pode ser considerado o mais hábil e mais perfeito exemplo dessa classe.

Os mais esclarecidos dentre os pagãos agora começam a sentir que, se a religião deles tinha que suportar o poder agressivo do evangelho, ela deveria ser defendida e reformada. Assim começou a controvérsia, e um certo Celso, um filósofo epicureu, que dizem ter nascido no mesmo ano que Tertuliano, firmou-se como líder do lado controverso do paganismo. Foi por volta desse período - os últimos anos do segundo século - que os registros sobre a igreja começaram a se tornar mais interessantes, por serem mais definidos e confiáveis. Mas antes de prosseguirmos adiante com a história geral, seria interessante refazer nossos passos e olhar brevemente para a história interna da igreja desde o princípio. Veremos, assim, como algumas das coisas que ainda são observadas, e com as quais estamos familiarizados, foram primeiramente introduzidas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Rápido Progresso do Cristianismo

Sem dúvidas, as causas e meios foram divinos. Eles provam ser assim. O Espírito de Deus, que desceu em poder no dia de Pentecostes, e que tinha tomado Sua morada na igreja e em cada cristão individualmente, é a verdadeira fonte de todo o sucesso na pregação do evangelho, na conversão das almas, e no testemunho para Cristo contra o mal. "Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor" (Zacarias 4:6). Além disso, o Senhor prometeu estar com Seu povo o tempo todo: "E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos." (Mateus 28:20). Mas nosso objetivo aqui é olhar para as coisas historicamente, e não apenas com a segurança da fé:

1. Uma das grandes causas da rápida propagação do cristianismo é sua perfeita adaptação ao homem em qualquer idade, em qualquer país, e em qualquer condição. Ele aborda todos como perdidos, e supõe uma falta em todos. Assim, ele se adapta ao judeu e ao gentio, ao rei e ao súdito, aos sacerdotes e ao povo, ao rico e ao pobre, ao jovem e ao velho, ao erudito e ao ignorante, ao moral e ao devasso. É a religião de Deus para o coração, e ali firma Sua soberania, e a Sua apenas. Ele se anuncia como o "poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1:16). Ele propõe levantar o homem das profundezas mais profundas de degradação para as alturas mais elevadas da glória eterna. Quem é capaz de estimar, apesar de todo preconceito, o efeito da proclamação de tal evangelho a pagãos miseráveis e ignorantes? Milhares, milhões, cansados de uma religião sem valor e desgastada, responderam à voz celestial, foram reunidos em torno do nome de Jesus, tomaram com alegria o espólio de seus bens, e estavam prontos para sofrer por amor a Ele. O amor reinava na nova religião, e o ódio na antiga.

2. A confirmação e manutenção de todas as relações terrenas que estivessem de acordo com Deus é outro motivo para a aceitação do evangelho entre os pagãos. Cada um era exortado a permanecer em seus relacionamentos e a procurar glorificar a Deus neles. As bênçãos do cristianismo para as esposas, filhos e servos são indescritíveis. Seu amor, felicidade e conforto eram um espanto para os pagãos, e uma novidade entre eles. Ainda assim, tudo era natural e ordenado. Um cristão, que dizem ter vivido nessa época - no início do segundo século - descreve assim seus contemporâneos: "Os cristãos não são separados dos outros homens pelo lugar onde moram, por língua ou por costumes. Eles não moram em um lugar especial na cidade, eles não usam uma linguagem diferente ou assumem um estilo de vida extravagante. Eles habitam nas cidades dos gregos, e dos bárbaros... e embora se adaptem aos costumes da região, no que diz respeito ao modo de vestir, à comida, e outras coisas que pertencem à vida exterior, eles ainda assim mostram uma conduta peculiar que é maravilhosa e marcante para todos. Eles obedecem as leis existentes, e superam a lei pela forma com que vivem." *

{* História da Igreja, de Neander, vol. 1, p. 95.}

3. As vidas irrepreensíveis dos cristãos, a pureza divina de suas doutrinas, sua paciência, alegre resistência a sofrimentos piores que a morte, assim como a própria morte, seu desprezo por qualquer objeto de ambição comum, sua ousadia na fé a ponto de correrem risco de vida, crédito e propriedades; estes eram os principais recursos na rápida disseminação do cristianismo. "Pois quem", diz Tertuliano, "ao observar tais coisas, não é impelido a investigar a causa? E quem, tendo investigado, não abraça o cristianismo, e tendo abraçado, não tem o desejo de sofrer por isso?"

Essas poucas indicações permitirão ao leitor formar um juízo mais definitivo quanto ao que, por um lado, tendia a impedir, e o que, por outro lado, tendia a promover o progresso do evangelho de Cristo. Nada pode ser mais interessante para a mente cristã que o estudo dessa grande e gloriosa obra. Os obreiros do Senhor, em sua maioria, eram homens simples e iletrados; eram pobres, sem amigos e destituídos de toda a ajuda humana; e ainda assim, em pouco tempo, persuadiram uma grande parte da humanidade a abandonar a religião de seus ancestrais, e a abraçar uma nova religião que é oposta às disposições naturais dos homens, aos prazeres do mundo, e aos estabelecidos costumes das eras. Quem poderia questionar o poder que vinha de dentro do cristianismo tendo tais fatos exteriores diante de si? Certamente foi o Espírito de Deus que revestiu de poder as palavras daqueles primeiros pregadores! Certamente a força deles nas mentes dos homens era divina. Uma mudança completa foi produzida: foram nascidos de novo - criados de novo em Cristo Jesus.

Em menos de cem anos a partir do dia de Pentecostes, o evangelho tinha penetrado na maioria das províncias do império romano, e foi largamente difundido em muitos delas. Em nosso breve resumo da vida de Paulo, e na tabela cronológica de suas missões, traçamos o primeiro plantio de muitas igrejas, e a propagação da verdade em muitas regiões. Nas grandes cidades centrais, tais como a Antioquia na Síria, Éfeso na Ásia, e Corinto na Grécia, vimos o cristianismo bem estabelecido, e espalhando suas ricas bênçãos entre as cidades e vilas vizinhas.

Também aprendemos, da antiguidade eclesiástica, que Cartago era para a África o mesmo que essas cidades eram para a Síria, Ásia e Grécia. Quando Escápula, o presidente de Cartago, ameaçou os cristãos com tratamento severo e cruel, Tertuliano, em um de seus veementes apelos, tentou fazê-lo refletir: "O que pretendes fazer", diz ele, "com tantos milhares de homens e mulheres de todas as idades e dignidades, por mais que livremente se ofereçam a si mesmos? Quantas fogueiras e espadas ainda serão necessárias? O que Cartago é capaz de sofrer se for dizimada por ti? Quando todos encontrarem ali o seu parente mais próximo e vizinhos, verá matronas e possivelmente homens de sua própria classe social e condição, e as pessoas mais importantes, também parentes ou amigos daqueles que são teus amigos mais próximos. Poupe-os então, por isso, para o seu próprio bem, se não para o nosso." *

{* Cristianismo Primitivo, de Cave, p. 20.}

Vamos agora continuar a narrativa dos eventos, e o próximo na ordem a ser relacionado é o martírio de Inácio.

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